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Agricultura

Pesquisadores querem ‘adestrar’ abelhas-sem-ferrão para polinizar cacau

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Foto: Luciano Costa / Instituto Tecnológico Vale (ITV)

Pequenas e frágeis, as flores de cacau são polinizadas manualmente por produtores rurais em várias plantações pelo Brasil. Durante o processo, é preciso manusear cuidadosamente as flores, coletar o pólen com ajuda de uma pinça ou de um pincel, e aproximar da parte reprodutora feminina de outra planta.

O procedimento deve ser feito pela manhã, quando a fertilidade das flores está no auge. Nesse processo, flores podem cair e outras não serem fecundadas. Por isso, investir em um polinizador profissional pode ser a chave para garantir melhores resultados.

“A polinização manual é bastante trabalhosa e tem um custo elevado, então tivemos a ideia de estudar abelhas, que são polinizadoras viáveis para o tamanho das flores de cacau”, comenta a bióloga Camila Maia.

Ela e outros especialistas da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Tecnológico Vale (ITV) Desenvolvimento Sustentável, em Belém (PA), planejam “adestrar” abelhas brasileiras sem-ferrão para polinizar as flores do cacau. Entre as mais de 180 espécies que existem na região amazônica, onde a planta é cultivada, 52 têm o tamanho ideal para serem polinizadoras.

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O método pode triplicar a produção do cacau onde é feita, quando comparado a plantios sem intervenção humana. A expectativa dos pesquisadores é de que a polinização assistida feita por abelhas treinadas aumente o cultivo de forma significativa.

Moscas das famílias Ceratopogonidae e Cecidomyiidae são consideradas as principais polinizadoras do cacau, com base em registros desses insetos visitando as flores. Com cerca de 3 milímetros (mm) de comprimento, aproximadamente cinco vezes menores que as flores do cacau, elas conseguem chegar aos órgãos reprodutores inacessíveis a insetos maiores.

Segundo o botânico José Rubens Pirani, do Instituto de Biociências (IB) da USP, sabe-se muito pouco sobre a polinização natural das flores de cacau, quando se compara com estudos sobre outras espécies frutíferas brasileiras. A dificuldade acontece justamente por conta do tamanho das flores, que têm entre 10 e 15 mm de diâmetro.

“É desafiador porque, além de pequena, a flor do cacau tem uma estrutura arquitetônica muito complexa”, comenta Pirani. Os órgãos reprodutores dessas flores estão protegidos por estruturas que atuam como barreiras e dificultam a chegada de polinizadores tanto até o pólen quanto ao estigma, que conduz aos ovários.

As moscas, aparentemente, não são eficientes no trabalho de polinização. “Alguns estudos já observaram que esses insetos carregam muito pouco pólen quando visitam as flores de cacau”, afirma a bióloga Vera Lúcia Imperatriz-Fonseca, da USP, coautora do estudo e referência no estudo de abelhas.

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Outra limitação das moscas diz respeito aos seus hábitos. “São mais ativas à noite e ao amanhecer, enquanto as abelhas trabalham durante o dia, principalmente de manhã”, comenta o biólogo Michael Hrncir, do Laboratório de Fisiologia Ambiental de Abelhas do IB-USP, outro coautor. “A parte feminina das flores têm sua fertilidade máxima pela manhã, até a hora do almoço.”

Segundo o pesquisador, as abelhas são atraídas para as flores pelo cheiro. “A ideia é treiná-las, associando o perfume da flor do cacau a uma recompensa para que elas busquem o pólen e fertilizem outras plantas”, conta Hrncir. “Não basta colocar as abelhas onde está o cacau, é preciso ensiná-las a trabalhar ali.”

A ideia de cooptá-las para incrementar a produtividade do cacau é inspirada em exemplos que já existem de treinamento de abelhas-africanas com ferrão (Apis mellifera). Na Argentina, o biólogo Walter Farina, da Universidade de Buenos Aires, apresentou em 2022 resultados positivos de polinização assistida em plantações de maçãs e peras. No Brasil, há aplicações similares em cultivos de soja, diz Imperatriz-Fonseca. O grupo espera pôr em prática o treinamento das abelhas nas plantações de cacau em breve.

Para Pirani, há muito trabalho pela frente. “Não existe comprovação de que elas atuarão efetivamente como polinizadoras; o fato de as abelhas visitarem as flores não garante que elas depositarão o pólen na parte feminina da flor e que isso vai gerar fecundação e produção de frutos”, afirma.

Imperatriz-Fonseca é otimista: “Tem muita chance de dar certo”. Outra vantagem do projeto, segundo ela, diz respeito à adaptação às novas condições impostas pela crise climática. “No futuro, a polinização será assistida em boa parte dos cultivos, porque o impacto do clima sobre a distribuição de abelhas é tão grande que o número de espécies vai diminuir”, afirma.

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“Essas menores terão mais chance de aguentar o calor porque seu sistema de termorregulação é diferente daquele das abelhas maiores, essenciais na produtividade de muitas plantas usadas como alimento.” conclui

Vitória Rosendo

Colaborou: Astrogildo Nunes – [email protected]

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Agricultura

Cuba avalia importada maçã do Rio Grande do Sul

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Foto: Agrolink

 

O governo do Estado, por meio da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), acompanhou nesta quinta-feira (9) a visita de uma missão internacional conduzida pela Organização Nacional de Proteção Fitossanitária (ONPF), de Cuba, no município de Vacaria, nos Campos de Cima da Serra.

Durante a agenda, a Associação Brasileira de Produtores de Maçã apresentou dados da cadeia produtiva, enquanto pesquisadores da Embrapa abordaram as principais pragas que afetam a cultura. A Divisão de Defesa Sanitária Vegetal da Seapi detalhou aos visitantes o processo de certificação fitossanitária. A missão também visitou duas empresas exportadoras para conhecer o sistema de produção local e avaliar o atendimento às exigências sanitárias.

Segundo a chefe da Divisão de Defesa Sanitária Vegetal do Departamento de Defesa Vegetal (DDV) da Seapi, Deise Feltes Riffel, a atuação do órgão tem sido determinante para garantir a conformidade do setor. “O trabalho desenvolvido pela Secretaria junto aos produtores trouxe o respaldo que os técnicos cubanos estavam buscando, da rastreabilidade, de saber que tudo está de acordo com as normas. E é importante para o estado, para a cadeia produtiva, a abertura de novos mercados, para garantir o escoamento dos produtos que são de excelente qualidade”, afirmou.

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O Rio Grande do Sul é o maior exportador de maçã do Brasil e embarca para 36 países, com destaque para Índia, Portugal e Irlanda. Em 2025, o estado produziu 567,40 mil toneladas, com concentração nos municípios de Vacaria, Bom Jesus e Caxias do Sul, conforme dados da publicação Radiografia da Pecuária Gaúcha 2025, da Seapi.

A missão cubana está no Brasil desde o início da semana para avaliar as condições de abertura do mercado à importação de frutas brasileiras. A agenda incluiu visitas em São Paulo, com análise de programas estaduais de certificação fitossanitária e sanidade de citros, além de áreas produtivas no Vale do São Francisco voltadas à exportação de uva.

A programação foi encerrada com reunião entre auditores da ONPF e representantes do Mapa, quando foram discutidos os resultados da auditoria e os próximos passos para a possível abertura do mercado cubano.

AGROLINK – Seane Lennon

Colaborou: Astrogildo Nunes – [email protected]

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Agricultura

O contraste do agronegócio brasileiro: Safras recorde e dívida alta

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em

Imagem: Freepik

O agronegócio brasileiro está enfrentando um contraste cada vez mais evidente: enquanto mantém posição de liderança global na produção e nas exportações, enfrenta um quadro de pressão financeira dentro da porteira, marcado por endividamento elevado, crédito mais restrito e margens comprimidas.

O setor fechou 2025 com cerca de R$ 879 bilhões em exportações e superávit de aproximadamente R$ 775 bilhões, respondendo por quase metade das vendas externas do país. Ao mesmo tempo, o endividamento rural alcança patamares estimados em torno de R$ 188 bilhões, o equivalente a aproximadamente duas safras e meia de geração de caixa — uma relação que indica perda de fôlego financeiro mesmo em um ambiente de produção elevada.

Brasil inicia plantio de trigo com déficit

Na prática, o produtor passou a operar com uma equação mais apertada. O custo de produção segue pressionado por insumos, fertilizantes e combustíveis, enquanto o crédito ficou mais caro com a alta dos juros. Ao mesmo tempo, eventos climáticos extremos, como estiagens e enchentes, reduziram produtividade em regiões importantes, comprometendo receitas e ampliando o risco das operações.

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Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, os desembolsos somaram R$ 207,3 bilhões, cerca de R$ 30 bilhões a menos que no mesmo período do ciclo anterior. O recuo foi puxado principalmente pelo custeio, que caiu de R$ 135,1 bilhões para R$ 117 bilhões, e pelos investimentos, que recuaram de R$ 65 bilhões para menos de R$ 50 bilhões, um sinal claro de retração na capacidade de expansão do setor. Ao mesmo tempo, a inadimplência no campo avançou para 8,3% no terceiro trimestre de 2025, indicando dificuldade crescente para fechar a conta.

O efeito já se espalha pela cadeia. A demanda por máquinas desacelera, fornecedores de insumos enfrentam maior risco de crédito e o produtor passa a reduzir pacote tecnológico para preservar caixa — movimento que tende a impactar produtividade nas próximas safras.

Fernanda Toigo

Colaborou: Astrogildo Nunes – [email protected]

 

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Agricultura

Tensão no Oriente Médio reduz oferta global de uréia

Publicado

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Imagem: reprodução/pensaragro

A escalada das tensões no Oriente Médio (apesar do cessar-fogo anunciado na noite de terça-feira, 07.04) segue pressionando o mercado global de fertilizantes e mantém as cotações da ureia em patamares elevados, com alta acumulada próxima de R$ 1.500 por tonelada desde o fim de fevereiro. O movimento reflete a redução da oferta e as incertezas logísticas em uma das regiões mais estratégicas para o abastecimento mundial.

Em março, cerca de 2 milhões de toneladas deixaram de circular no mercado internacional, entre paralisações de unidades produtivas e cargas retidas em rotas marítimas. O impacto foi imediato sobre os preços e ainda não foi totalmente absorvido, o que sustenta o atual nível de valorização.

Navios voltam a transitar por Ormuz

A situação é agravada por restrições em importantes polos produtores. O Irã, que teve unidades afetadas, responde por parcela relevante das exportações globais e também das importações brasileiras. Ao mesmo tempo, outros mercados seguem pressionados por fatores paralelos, como limitações na oferta de gás para fertilizantes e ajustes na produção em países exportadores.

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A demanda internacional também contribui para o aperto. Grandes compradores continuam ativos no mercado para recompor estoques, mantendo a disputa por volumes disponíveis em um cenário de oferta reduzida.

No Brasil, o efeito é direto. O país importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, e, no caso da ureia, a dependência externa é ainda mais elevada. O consumo anual gira entre 7 e 8 milhões de toneladas, principalmente para culturas como milho, cana-de-açúcar e pastagens.

Os preços internos acompanham o movimento internacional. A ureia já é negociada próxima de R$ 3.800 por tonelada, mantendo tendência firme, enquanto outros nitrogenados também registram elevação, refletindo a menor disponibilidade global.

No cenário global, o consumo de fertilizantes nitrogenados supera 110 milhões de toneladas por ano, o que amplia a sensibilidade do mercado a qualquer interrupção relevante na oferta.

Para o produtor, o cenário reforça a necessidade de cautela no planejamento da próxima safra. A alta dos fertilizantes ocorre em um momento de crédito mais restrito, juros elevados e margens pressionadas, o que aumenta o risco na formação de custo.

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Enquanto não houver recomposição efetiva da oferta global, o mercado tende a seguir volátil, mantendo o fertilizante como um dos principais pontos de atenção dentro da porteira.

Com Pensar Agro

Fernanda Toigo

Colaborou: Astrogildo Nunes – [email protected]

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