Agricultura
A semente da fortuna: Conheça a ‘Santa Rosa’, a cultivar lendária que saiu do Sul para criar os impérios da soja em Mato Grosso e completa 60 anos

Foto: Divulgação
Em 1966, durante a 1ª Fenasoja em Santa Rosa (RS), o Brasil assistia ao nascimento de um gigante silencioso. A cultivar “Santa Rosa” não era apenas mais uma semente; era a primeira soja genuinamente adaptada ao solo brasileiro. Se hoje Mato Grosso é uma potência global, o DNA desse sucesso remonta a esse grão rústico que completa seu 60º aniversário em 2026.
A história parece inacreditável: o grão que hoje sustenta 6% do PIB nacional chegou ao Brasil em 1914 como uma solução contra a fome. O pastor Albert Lehenbauer trouxe as sementes para colonos pobres no Sul, que a plantavam para consumo próprio e para alimentar suínos. Quem poderia imaginar que aquela “ração de porco” transformaria o Brasil no maior exportador mundial de soja?
O dia em que o Brasil deixou de depender dos EUA
Até os anos 60, o agricultor brasileiro era refém de sementes americanas, desenvolvidas para climas frios e que produziam pouco por aqui. A virada de chave aconteceu no Instituto Agronômico de Campinas (IAC), sob a orientação dos doutores Leonard Williams e Shiro Miyasaka.

Eles cruzaram linhagens americanas para criar um material genético superior. Mas foi no Rio Grande do Sul que o potencial explodiu. Multiplicada a partir de apenas 2 quilos de sementes, a Santa Rosa provou que conhecia a terra em que pisava, atingindo 91 centímetros de altura e uma rusticidade que as variedades estrangeiras não possuíam.
A conexão Mato Grosso: A semente que abriu as fronteiras
A Santa Rosa foi a “mãe” das lavouras de Mato Grosso. Nos anos 70, pioneiros como a família Daltrozo deixaram o Sul rumo ao Centro-Oeste levando essa semente na bagagem. Eles desbravaram Primavera do Leste (MT) enfrentando o desconhecido com a segurança que apenas a cultivar Santa Rosa oferecia.
O impacto da semente na ocupação do Cerrado foi definitivo:
- Resiliência Genética: Adaptou-se a baixas latitudes, permitindo o plantio em MT e MS;
- Base Científica: Serviu de matriz para as 159 cultivares desenvolvidas pela Embrapa Soja após 1975;
- Logística Heroica: Produtores viajavam centenas de quilômetros de volta ao RS apenas para buscar as sementes originais;
- Legado Familiar: Hoje, a terceira geração de produtores em MT ainda colhe os frutos dessa coragem pioneira.
De 206 mil para 179 milhões de toneladas
Os números são colossais. Em 1960, o Brasil produzia apenas 206 mil toneladas de soja. Para a safra 2025/26, a projeção da Conab é de surreais 179,2 milhões de toneladas. A produtividade média saltou de 1.000 kg para 4.000 kg por hectare, graças aos avanços genéticos inaugurados pela Santa Rosa.
Santa Rosa, a cidade gaúcha que batizou a cultivar e sedia a Fenasoja, tornou-se o endereço de origem de toda a riqueza que vemos hoje em cidades como Lucas do Rio Verde e Sorriso. “O Rio Grande do Sul teve coragem de plantar quando ninguém sabia o que a soja seria”, destaca Marcos Servat, presidente da Fenasoja.
A pesquisadora Mônica Zavaglia, da Embrapa Soja, reforça que o fio condutor que conecta o Brasil moderno ao agronegócio passa obrigatoriamente por 1966. Os primeiros cientistas da Embrapa foram formados no mesmo programa que criou a Santa Rosa.
60 anos de um legado que alimenta o mundo
Celebrar o 60º aniversário da Santa Rosa é reconhecer que o império da soja não começou em grandes escritórios, mas nas mãos de colonos que plantaram com esperança no noroeste gaúcho. Hoje, o “complexo soja” (grão, farelo e óleo) alimenta bilhões de pessoas em quatro continentes.
O grão que era administrado nos cochos dos colonos virou o maior ativo do agronegócio brasileiro. E se você olhar para qualquer lavoura de soja em Mato Grosso nesta safra, saiba que, no fundo de cada planta, existe um pouco da história que começou há seis décadas em Santa Rosa.
Fonte: CenárioMT
Colaborou: Astrogildo Nunes – [email protected]
Agricultura
Zarc do girassol é atualizado e amplia precisão na análise de risco climático no Brasil

Foto: Dulce Mazer
O Ministério da Agricultura e Pecuária publicou uma nova portaria que atualiza o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) para a cultura do girassol no Brasil, introduzindo mudanças que ampliam a precisão das análises e fortalecem a segurança para o produtor rural. A principal novidade é a adoção de seis classes de água disponível no solo, substituindo o modelo anterior, que trabalhava com apenas três categorias.
A atualização, chamada de Zarc Girassol – 06ADs, representa um avanço técnico importante ao incorporar novos parâmetros e bases de dados climáticos mais recentes. Segundo a Embrapa Soja, responsável pelos estudos, a nova metodologia considera fatores hídricos, térmicos e fitossanitários, permitindo uma leitura mais fiel das condições de cultivo em diferentes regiões do país.
Mais precisão para reduzir perdas no campo
O zoneamento define períodos e áreas com menor risco de perdas produtivas, considerando probabilidades de até 20%, 30% e 40% diante de eventos climáticos adversos. No entanto, os especialistas alertam que a ferramenta não indica, necessariamente, onde se obterão os maiores rendimentos, mas sim onde há menor risco de prejuízo.
A principal mudança está na forma de calcular a água disponível no solo. Agora, além do teor de argila, passam a ser considerados também os níveis de silte e areia, o que permite uma avaliação mais detalhada das características de cada área produtiva. Essa abordagem torna o zoneamento mais próximo da realidade enfrentada pelos produtores no campo.
Outro avanço relevante é a possibilidade futura de integrar diferentes níveis de manejo do solo e sistemas produtivos às análises de risco, ampliando ainda mais a utilidade da ferramenta.
Clima e doenças entram no radar do produtor
A nova versão do Zarc também passa a associar condições climáticas ao risco de doenças nas lavouras, um fator decisivo para a produtividade. Doenças como o mofo branco, favorecido por clima frio e úmido, e a mancha de alternaria, associada a calor e excesso de chuva, passam a ser consideradas na definição das áreas e períodos de menor risco.
Essa integração permite ao produtor tomar decisões mais estratégicas, reduzindo perdas e aumentando a eficiência do cultivo.
Cultura estratégica, mas com desafios
Apesar do potencial do girassol, a cultura ainda enfrenta limitações no Brasil. A Companhia Nacional de Abastecimento estima que a área cultivada na safra 2025/26 deve ultrapassar 63 mil hectares, concentrados principalmente em estados como Goiás, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Mato Grosso.
Entre os principais entraves estão a variabilidade climática e a disponibilidade de água, fatores que impactam diretamente o rendimento das lavouras. O girassol necessita de cerca de 500 a 700 milímetros de água ao longo do ciclo, sendo mais sensível à falta hídrica nas fases iniciais e na formação dos grãos.
Impacto direto em crédito e políticas públicas
O Zarc é uma ferramenta estratégica para o acesso ao crédito rural e programas de seguro agrícola, como o Proagro e o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural. Desde 1996, suas recomendações são utilizadas para orientar financiamentos e reduzir riscos na atividade agropecuária.
Segundo estudos técnicos, o Brasil perde cerca de R$ 11 bilhões por ano em função de eventos climáticos extremos, como secas, geadas e excesso de chuvas. Com a atualização, a expectativa é reduzir essas perdas e oferecer maior previsibilidade ao produtor.
A nova versão do zoneamento reforça o papel da ciência na agricultura brasileira e aponta para um cenário em que tecnologia, dados e gestão de risco se tornam cada vez mais decisivos para a sustentabilidade e competitividade do setor.
Fonte: CenárioMT
Colaborou: Astrogildo Nunes – [email protected]
Agricultura
Milho 2ª safra – Pressão de lagartas no cereal se intensifica na área da BR-163

Divulgação
Sorriso (MT) – Seguiram recorrentes na segunda safra de milho deste ano os ataques de lagartas, principalmente da Spodoptera frugiperda, às chamadas biotecnologias de última geração. O relato vem da J&A Consultoria, atuante em toda a região da BR-163 e sediada na cidade mato-grossense de Sorriso. “Praticamente perdemos uma ferramenta que agregava eficiência ao manejo da cultura”, adianta Jeferson Brambilla, sócio fundador da empresa, responsável pela gestão de quase 90 mil hectares de cultivos naquele estado.
Engenheiro agrônomo, especialista em fertilidade de solo e nutrição de plantas, Brambilla destaca que praticamente 100% das áreas de milho da BR-163 registraram ataques recentes de Spodoptera.
“Este ano, estávamos mais preparados em comparação à safra anterior, quando as infestações de lepidópteros devem ter sido as mais intensas dos últimos anos”, acrescenta. “As primeiras áreas cultivadas nesta safrinha sofreram no enfrentamento da ‘Spodoptera’”, reforça Brambilla.
Segundo o especialista, a recomendação da J&A Consultoria ao produtor remete a aplicações de inseticidas químicos e biológicos na contenção da lagarta.
“A integração dos biológicos ao manejo, principalmente dos baculovírus, têm nos trazido resultados muito bons. Conseguimos passar de 90% em eficácia no manejo. O grande detalhe relacionado ao controle da ‘Spodoptera frugiperda’ é o tempo, ou seja, aplicar inseticidas químicos e biológicos no momento em que a lagarta está nos primeiros ‘ínstares’, pequena’”, continua Jeferson Brambilla.
Ainda assim, ele ressalta, diante da comprovada ‘perda’ das biotecnologias, os custos do produtor com a compra de inseticidas aumentam safra após safra.
Mais aplicações de inseticidas e migração
Na ‘safrinha’ de milho na região da BR-163, informa Brambilla, houve a necessidade de o produtor fazer de três a quatro aplicações a mais de produtos por hectare no controle de lagartas. “Esta relação elevou os custos das propriedades na faixa de US$ 60 por hectare”, calcula o consultor.
“Ano após ano o produtor sente mais a pressão de custos. Está cada vez mais difícil para ele por conta da perda das biotecnologias. No caso do milho, especialmente, por ser uma cultura rápida, o controle de lagartas torna-se ainda mais complexo”, finaliza Jeferson Brambilla.
Conforme Brambilla, nesta época do ano o milho começa a secar nas áreas da BR-163. “Ocorre comumente a migração da ‘Spodoptera frugiperda’ para o algodão”, ele salienta. “Nas últimas duas semanas esse cenário se consolidou. Vemos hoje um número expressivo de mariposas nas lavouras. Necessário controlar rápido à praga porque, se ela entrar nas estruturas reprodutivas da cultura, haverá dano representativo ao produtor”, alerta Brambilla.
No milho e no algodão, conclui o consultor, o “melhor momento” de controlar à Spodoptera frugiperda é “sempre cedo”. “Quando o produtor adota manejos preventivos, obtém melhor eficiência e consegue reduzir custos.”
Fernanda Campos
Colaborou: Astrogildo Nunes – [email protected]
Agricultura
Ginseng conquista selo de Indicação Geográfica

Foto: Check Films
O ginseng de Querência do Norte, no Noroeste do Estado, obteve o registro de Indicação Geográfica (IG) na modalidade Denominação de Origem, concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). O resultado foi divulgado nesta terça-feira (5) e amplia a liderança paranaense no ranking nacional com 25 produtos com selo de IG.
Além de valorizar as tradições locais, o reconhecimento fortalece a identidade do produto, melhora a inserção no mercado e contribui para o desenvolvimento regional. No caso de Querência do Norte, a certificação atesta que as qualidades do ginseng decorrem essencialmente do ambiente de produção, com influência direta de solo, clima e do conhecimento dos produtores.
“A conquista é um marco que eleva o patamar da nossa produção. Uma Indicação Geográfica não é apenas um selo, é uma ferramenta poderosa de diferenciação de mercado. Ela garante ao consumidor a autenticidade e a qualidade vinculada ao nosso território, permitindo que o produtor rural paranaense capture mais valor e acesse mercados globais que exigem rastreabilidade e tradição”, afirma o diretor-presidente do IDR-Paraná, Natalino Avance de Souza.
A partir do reconhecimento destes requisitos, a certificação assegura que apenas o ginseng originário de Querência do Norte utilize a denominação, o que amplia a credibilidade, favorece melhores preços e fortalece a economia do município. A chancela também estimula a organização dos produtores, a geração de empregos e a atração de investimentos.
A exemplo da valorização do produto no mercado internacional, a Associação de Pequenos Agricultores de Ginseng de Querência do Norte (Aspag) prepara um novo lote de 1,2 tonelada do produto que será exportado para a França. A mercadoria, que será enviada nesta semana, é destinada à indústria cosmética. Desde 2015, a produção também atende mercados da China e do Japão, com foco no segmento medicinal.
Atualmente, a produção de ginseng em Querência do Norte conta com cerca de 30 hectares plantados. A produção inclui raízes e parte aérea da planta, como talos, folhas e flores, o que só foi possível após estudos científicos comprovarem que a parte aérea tem princípios ativos tanto quanto as raízes.
A produção anual chega a 300 toneladas in natura, com potencial de 60 toneladas de raízes secas. A atividade gera renda para cerca de 30 famílias, entre produção e serviços ligados à cadeia, como transporte, beneficiamento e apoio administrativo.
A conquista do selo de Indicação Geográfica resulta de um trabalho coletivo entre a Aspag, Sebrae Paraná, Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), Prefeitura de Querência do Norte e Sicredi.
TRAJETÓRIA – O caminho até essa conquista começou em 2019, com a preparação da documentação necessária e a comprovação da qualidade do produto. Estudos comparativos analisaram a mesma variedade cultivada em outros estados e indicaram maior concentração de beta-ecdisona no ginseng local, substância associada aos benefícios da planta.
O processo incluiu levantamento de dados, criação de comitê gestor, adequação do estatuto da associação e desenvolvimento da logomarca e identidade visual. Também houve a elaboração de um caderno de especificações técnicas, que é uma exigência para o registro. Os produtores receberam apoio para criação de identidade visual e participação em eventos e missões técnicas.




DIFERENCIAL – O ginseng de Querência do Norte é da espécie Pfaffia glomerata, nativa da Mata Atlântica e adaptada às ilhas e várzeas do Rio Paraná. A planta pode atingir até dois metros de altura e mantém qualidade mesmo com colheitas em diferentes períodos. O cultivo ocorre a partir de sementes locais e envolve, em sua maioria, agricultores familiares de assentamentos e comunidades tradicionais da região.
Possui propriedades estimulantes e revitalizantes, com uso associado à redução de estresse e fadiga, melhora da memória e aplicação em produtos cosméticos. Também é reconhecido como energético natural e apresenta características anti-inflamatórias, antioxidantes e fortalecedoras do organismo.
IG DO PARANÁ – Além do ginseng, o Paraná possui outros 24 produtos com selo de Indicação Geográfica, são eles: as ostras do Cabaraquara; poncã de Cerro Azul; broas de centeio de Curitiba; cracóvia de Prudentópolis; carne de onça de Curitiba; café de Mandaguari; urucum de Paranacity; queijo colonial do Sudoeste do Paraná; cafés especiais do Norte Pioneiro; morango do Norte Pioneiro; goiaba de Carlópolis; mel de Ortigueira; queijos coloniais de Witmarsum; cachaça e aguardente de Morretes; melado de Capanema; vinhos de Bituruna; mel do Oeste do Paraná; barreado do Litoral do Paraná; bala de banana de Antonina; erva-mate de São Mateus; camomila de Mandirituba; uvas finas de Marialva; tortas de Carambeí e café da Serra de Apucarana.
Além delas, há ainda o mel de melato da bracatinga do Planalto Sul do Brasil, Indicação Geográfica concedida a Santa Catarina que envolve municípios do Paraná e do Rio Grande do Sul.
Outros seis produtos do Paraná têm pedidos depositados e em análise no INPI: acerola de Pérola; pão no bafo de Palmeira; cervejas artesanais de Guarapuava; mel de Capanema; couro de peixe de Pontal do Paraná e cambira de Pontal do Paraná.
Saiba mais sobre os produtos paranaenses que conquistaram Indicação Geografica em uma série de reportagens produzida pela Agência Estadual de Notícias.
Com AEN/PR
Fernanda Toigo
Colaborou: Astrogildo Nunes – [email protected]
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